Missa em Si menor

A Missa em Si menor é uma missa luterana ou católica?

A questão anterior vai coadjuvar o nosso regresso a Johann Sebastian Bach e àquela que é considerada uma das construções mais admiráveis de toda a música ocidental.

Relativamente à questão que inaugura este nosso texto, diremos que a Missa em Si menor, BWV 232, é uma versão do texto latino da missa que, no entanto, ao invés das cinco partes que compõem o Ordinário da Missa Católica Romana, Johann Sebastian Bach optou por a organizar em quatro secções. Sinalizaremos, a propósito, que Carl Philipp Emanuel Bach, numa compilação de todos os títulos da vasta produção do seu pai publicada em 1789, referiu-se a esta admirável obra como a “Grande Missa Católica”.

A par da pergunta introdutória, muitas outras questões envolvem a escrita desta soberba obra, tanto no que se refere à razão pela qual Bach se propôs compor uma obra daquela magnitude, como à compreensão das imensas especificidades do próprio texto musical. Talvez a Missa em Si menor tenha sido concebida, em toda a sua magnificência, como o testemunho e a culminância de toda a sua escrita coral.

Johann Sebastian Bach consagrou os últimos anos da sua vida a compor e a coligir um conjunto de obras que se constituiriam como um epítome da sua longa e excelsa produção.

Recordemos, entretanto, as cinco partes constitutivas do Ordinário da Missa: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei.

Bach ordenou as quatro secções da sua Missa em Si menor, estabelecendo, para o efeito, uma correspondência com as cinco partes do Ordinário da Missa do seguinte modo:

        1. Missa                       (consta de Kyrie e Gloria)

        2. Symbolum Nicenum   ( Credo)

        3. Sanctus

        4. Osanna, Benedictus, Agnus Dei, Dona nobis  pacem

Esta magistral obra sacra, que designamos hoje por Missa em Si menor, admirada pela sua espantosa expressividade dramática e pela sua sensação e sentido de unidade, foi, todavia, escrita ao longo de vinte e cinco anos — referiremos, também, que o título pelo qual ela é hoje conhecida só seria cunhado muitos anos mais tarde, pelas gerações vindouras.

Crê-se que Johann Sebastian Bach nunca ouviu, na íntegra, a execução da sua admirável obra. Ao que parece, a primeira execução completa da obra só viria a ocorrer em 1859, mais de dois séculos após a sua morte.

A Missa em Si menor resultou, assim, de um esforço equilibrado e subtil de organizar um todo formado por criações anteriores e por peças inéditas, de tal sorte que, representando um conjunto de movimentos em diversos estilos, esta magnífica obra transcende a dissemelhança das suas origens.

A escrita desta monumental obra data do período da longa residência de Bach em Leipzig, que compreende os anos de 1723 a 1750.

É provável que o Sanctus, a secção mais antiga da Missa em Si menor, tenha sido escrito para ser executado no Natal de 1724. Por sua vez, o Kyrie e o Gloria eram as partes integrantes de uma Missa Brevis composta, em 1733, por Bach — então Capellmeister e Diretor Musical da Nikolaikirche (Igreja de São Nicolau) — para ser executada durante as cerimónias que consagraram Frederico Augusto II como novo Rei-Eleitor da Saxónia.

No que concerne ao Credo, considerado a pedra angular de toda a estrutura, pensa-se que foi composto no início da década de 1740. Para completar a obra, Bach adicionou uma secção final formada pelos seguintes movimentos: Osanna, Benedictus, Agnus Dei e Dona nobis pacem, tendo a obra ficado concluída nos anos de 1748 – 1749.

Não deixaremos de sinalizar, como de nota da mais absoluta justificabilidade, que o manuscrito autógrafo deste marco incontendível da cultura ocidental, que por se constituir como uma das mais elevadas criações do espírito humano, faz parte do acervo do Registo da Memória do Mundo da UNESCO. Adscreveremos, ainda, que aquele valedouro manuscrito se encontra à guarda da Biblioteca Estatal de Berlim.

Enfatizando ainda mais — se necessário fosse — a enorme relevância daquele manuscrito, sabe-se que Beethoven tentou, por mais de uma vez, obter uma sua cópia sem nunca o ter conseguido.

Para tentar ilustrar o que atrás foi dito, ouviremos o fabuloso Coro do Kyrie eleison I, movimento que inaugura a Missa em Si menor e, de certo modo, prenuncia toda a excelsitude que esta magnífica obra encerra. A execução daquele movimento é-nos oferecida, de forma superlativa, pelos English Baroque Soloists e pelo Monteverdi Choir, sob a direcção do maestro Sir John Eliot Gardiner.

https://www.youtube.com/watch?v=O158gelF3hY

Para término deste breve texto, aditaremos a sigla que Bach, amiudadamente, escrevia no final das suas composições:

                                                                           SDG

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