“Eu Sou o que Sou”
Êxodo 3:14
Penso que podemos afirmar, com toda a aceitabilidade, que a frase em epígrafe — que consta do Versículo 14 do Capítulo 3 do Êxodo, um dos livros do Antigo Testamento — nos remete para o conceito de absoluto.
Serve aquele versículo para enfatizarmos o nosso mais profundo convencimento de que existem poetas, músicos, cantores, artífices, enfim, nas várias áreas da criação artística que, em virtude da imensidão do seu estro e da grandeza da sua obra, eximem-se de qualquer adjectivação.
Poderíamos estar a falar, por exemplo, de Édith Piaf, de Ella Fitzgerald, de Sarah Vaughan ou de Nina Simone. Desta feita, falamos de Amália Rodrigues.
Amália Rodrigues, de seu nome completo Amália da Piedade Rebordão Rodrigues, terá nascido no ano de 1920, num dia incerto. Parece que nasceu a 1 de Julho, mas na sua certidão de nascimento lavrada em Lisboa — embora tenha nascido no Fundão — consta o dia 23 de Julho. A despeito da incerteza do dia do seu nascimento, parece que a avó e a mãe ter-lhe-ão dito que ela nasceu no tempo das cerejas.
Amália Rodrigues começou a cantar em marchas de bairro quando criança, tendo feito a sua estreia profissional em 1939, aos 19 anos, granjeando logo uma enorme popularidade.
Numa carreira dedicada à música, que se estendeu por mais de cinco décadas, Amália Rodrigues também se adentrou nos territórios do teatro, onde se estreou em 1940, no Teatro Maria Vitória, com a peça “Ora vai tu!”. Amália Rodrigues experienciou de igual modo o cinema, iniciando-se nessa arte em 1947, com a sua participação no filme “Capas Negras”, de Armando Miranda.
Regressemos à música, mais propriamente ao fado, para notar que no início da década de 1940, o génio de Amália Rodrigues cruzou-se com o talento e a inventividade do compositor Frederico Valério, o qual compôs para a sua excepcional voz algumas das mais belas melodias cantadas por ela, de que daremos como exemplo o magnífico fado “Ai Mouraria”, com letra de Amadeu do Vale e música, lá está, de Frederico Valério.
Fixemo-nos agora em 1962, ano em que ocorre o encontro de Amália Rodrigues com o pianista, compositor e editor francês Alain Oulman (1928 – 1990). É nesse ano que é gravado um dos discos fulcrais da sua carreira e, destarte, um documento essencial para a história do fado. Originalmente lançado pela Columbia em 1962, esse extraordinário disco traz apenas o nome da cantora na capa. Todavia, passou a ser conhecido como “Busto” devido à escultura que figura na dita capa. Desse disco, que de forma consensual se diz ter elevado o fado a um patamar de excelência, constam fados da dimensão de Povo que Lavas no Rio, com letra de Pedro Homem de Mello e música de Joaquim Campos; Abandono, com letra de David Mourão-Ferreira e música de Alain Oulman e Estranha Forma de Vida, com letra da própria Amália Rodrigues e música de Alfredo Marceneiro.
Há quem sublinhe, enfaticamente, que foi o encontro de Amália com Alain Oulman que instituiu a modernidade no fado.
Atentemos na impressiva e bela frase da fabulosa obra Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar:
“Tinha esquecido que certos seres removem
os limites do destino, modificam a História”
É da maior justeza, cabimento e validez evocar tal pressuposição associada à figura de Amália Rodrigues, pois para além da gravação de Busto, essa enorme fadista, mulher de uma imensa coragem, sensibilidade e intuição, ousou, decorria o ano de 1965, alargar as fronteiras do fado ao cantar poemas de grandes nomes das letras portuguesas, ajudando, assim, a definir e a moldar o fado tal como hoje o conhecemos.
Amália Rodrigues começou por cantar Camões num EP intitulado, precisamente, Amália canta Luís Vaz de Camões, e, seguidamente, voltar a cantar David Mourão-Ferreira e Camões, para além de outros grandes poetas do cancioneiro português como José Régio, Pedro Homem de Mello e Alexandre O’Neill, no álbum Fado Português. Sublinharemos, ainda, que em todos estes fados emerge a figura tutelar de Alain Oulman na composição.
Amália Rodrigues, cujo impacto na cultura portuguesa é deveras inestimável, ajudou com o seu génio a levar o fado muito para além das fronteiras de Portugal, actuando um pouco por todo o mundo — do Japão à Itália, dos EUA à Alemanha — disseminando o seu talento e a sua arte em salas tão prestigiosas como, por exemplo, a Carnegie Hall e o Lincoln Center, em Nova Iorque, o Teatro Sistina, em Roma, e o Olympia de Paris.
Enfatizaremos, a título de exemplo, os seguintes prémios e comendas:
- Grande Medalha de Prata da Cidade de Paris;
- Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago de Espada;
- Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique;
- Comendadora da Ordem das Artes e Letras de França;
- Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica de Espanha
que corroboram, enfatizam e sobrelevam a excelsitude da longa e extraordinária carreira artística de Amália Rodrigues.
Adiantaremos, ainda, que, em 1987, foi lançada a sua biografia oficial, da autoria do historiador Vítor Pavão dos Santos.
A terminar, anotaremos que Amália Rodrigues faleceu no dia 6 de Outubro de 1999.
O seu corpo foi, posteriormente, transladado, em 2001, para a Igreja de Santa Engrácia, sendo a primeira mulher portuguesa a ter honras de Panteão Nacional.
Por tudo o que atrás ficou dito, pensamos que se pode dizer, sem qualquer vislumbre de desconformidade ou de inexatidão, que Amália da Piedade Rebordão Rodrigues foi uma das mais extraordinárias cantoras do século XX.
A encerrar este breve texto, predisponhamo-nos a escutar Povo Que Lavas no Rio — fado que consta do fabuloso álbum Busto, como mais acima já déramos nota: