Douce Dame Jolie

      “Quando o chuvoso abril em doce aragem

        Desfez março e a secura da estiagem,

        Banhando toda a terra no licor

        Que encorpa o caule e redesperta a flor,

        E Zéfiro, num sopro adocicado,

        Reverdeceu os montes, bosques, prados,

        E o jovem sol, em seu trajeto antigo,

        Já passou do Carneiro do Zodíaco,

        E melodiam pássaros despertos,

        Que à noite dormem de olhos bem abertos,

        Conforme a Natureza determina

        — É que o tempo chegou das romarias.

        E lá se vão expertos palmeirins

        Rumo a terras e altares e confins;

        Da vária terra inglesa, gente vária

        Põe-se a peregrinar à Cantuária

        Onde jaz a sagrada sepultura

        Do mártir que lhes deu auxílio e cura.”

Pensamos que estas belas palavras, eduzidas do Prólogo geral da magnífica obra The Canterbury Tales, do escritor inglês Geoffrey Chaucer, são uma excelente forma de adentrarmos no Séc. XIV, no qual podemos contemplar, por exemplo, as figuras do teólogo inglês John Wycliffe e do poeta italiano Francesco Petrarca. É neste tempo histórico que nos vamos deter, para podermos, uma vez mais, dispensar a nossa melhor atenção à obra daquele que é, por muitos, considerado o mais proeminente compositor de todo o século XIV europeu, a saber, Guillaume de Machaut (c.1300 – 1377).

Ainda antes, contudo, adiantaremos numa breve nota que The Canterbury Tales, tida como a mais importante obra literária do período medievo europeu, é encarada como o texto que contribuiu, sobremaneira, para fixar o cânone literário como hoje o entendemos.

Geoffrey Chaucer é comummente considerado um dos maiores cultores da língua inglesa.

Antes de encerrarmos este apontamento sucinto, adiantaremos que o pequeno excerto com que iniciámos este texto consta da tradução do inglês moderno para português levada a cabo pelo escritor, crítico literário e tradutor brasileiro José Francisco Botelho, a partir da tradução do inglês médio para o inglês moderno, do académico anglo-irlandês Nevill Coghill.

Concluamos, então, esta breve anotação com as doutas palavras do professor e critico literário norte-americano Harold Bloom:

“Estes contos são o Decameron da literatura inglesa […] e são a primeira narrativa em verso escrita em vernáculo. A sua fama e alcance histórico, social e cultural ultrapassam qualquer outro texto desta época, sendo o primeiro deles verdadeiramente universal.”

No que concerne à admirável obra de Guillaume de Machaut, iremos, desta feita, dedicar a nossa mais fina atenção a um virelai denominado Douce Dame Jolie, por vezes chamado apenas de Douce Dame, na insuperável voz da alto Margaret Philpot.

A belíssima peça Douce Dame Jolie, tal como o outo virelai, Foy Porter, já escutado anteriormente, constam de um magnífico conjunto de canções de Guillaume de Machaut, que surgem num registo da editora discográfica britânica Hyperion, com o título The Mirror Of Narcissus. Estas excelentes canções são-nos oferecidas através de notáveis vozes do ensemble vocal Gothic Voices, grupo formado e dirigido pelo académico e músico inglês Christopher Page.

Aproveitaremos o ensejo, para reparar uma pequena desatenção — pois, aquando da escrita do texto que acompanhava o virelai Foy Porter, não fizemos quaisquer referências à pessoa e à notável obra do académico Christopher Page. O resultado dos estudos levados a cabo por este incansável estudioso permite-nos chegar ao conhecimento de excepcionais músicos da Baixa Idade Média como, e.g., o já referido Guillaume de Machaut, o músico francês Guillaume Du Fay ou a abadessa alemãHildegard von Bingen.

Enfatizaremos, a propósito, que Christopher Page, professor de Música e Literatura Medieval na Universidade de Cambridge, é detentor da Medalha Dent da Royal Musical Association em virtude dos seus excepcionais contributos para o aprimoramento da musicologia.

A sublimidade de vozes como as da soprano Emma Kirkby, da alto Margaret Philpot (já mencionadas anteriormente), do tenor Rogers Covey-Crump ou da soprano Emily van Evera vem enfatizar ainda mais a excelência do admirável e insubstituível trabalho desenvolvido por Christopher Page, o qual nos tem permitido acercar de um notável acervo musical que, doutra forma, possivelmente, a ele não acederíamos — pelo menos com a magnificência que o desvelo empregue por Christopher Page e pelo ensemble Gothic Voices propiciam!

Disponhamo-nos, então, com um enorme júbilo, a escutar o venusto virelai intitulado Douce Dame Jolie.

https://www.youtube.com/watch?v=_5w9Kb4NtqI

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