Crime e Castigo

“Como a descoberta do amor, como a descoberta do mar, a descoberta de Dostoiévski marca uma data memorável da nossa vida.”

             Jorge Luis Borges

A Rússia do Séc. XIX viu surgir dois vultos que, pelo seu pioneirismo, podem, de algum modo, serem equiparados. Falamos de Mikhail Glinka (1904 – 1957), considerado o pai da moderna música russa, e de Aleksandr Pushkin (1799 – 1837), tido como o fundador da moderna literatura russa. De Mikhail Glinka, que nos poderá levar a Mily Balakirev e ao Grupo dos Cinco, falaremos numa outra ocasião.

Atentemos, desta feita, na figura do romancista, dramaturgo e poeta Aleksandr Pushkin — visto, amiudadamente, como o maior poeta russo.

Será a partir desse grande vulto das letras russas que chegaremos a Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881), escritor que, tal como Turguéniev, fora influenciado pela figura tutelar de Pushkin.

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, romancista, contista, ensaísta e jornalista russo, é unanimemente considerado um dos maiores vultos da História da Literatura, cuja influência é de tal ordem que se pode afirmar que o existencialismo, várias correntes da teologia e da psicologia e o romance moderno foram influenciados pelos seus escritos. De facto, em termos literários, Dostoiévski, juntamente com, por exemplo, Charles Baudelaire e Gustave Flaubert, seus contemporâneos, ajuda a fazer a passagem do Romantismo para o Modernismo.

Segundo muitos historiadores, a obra de Dostoiévski deve ser encarada como um facto histórico da maior relevância para se perceber a transição da cultura europeia do Séc. XIX para o Séc. XX.

A obra de Dostoiévski, que só começou a ser conhecida na Europa Ocidental na década de 1880, portanto, após a sua morte, causou de início uma grande estranheza ao leitor ocidental, devido tanto ao tipo de escrita, como à ambiência “bizarra” da trama dos seus livros. Assim, ao contrário do que acontecera com Tolstoi ou com Turguenév, nas primeiras traduções de Dostoiévski, por exemplo, para francês, os seus livros tiveram de ser “compostos” para serem perceptíveis ao leitor europeu.

De Fiódor Dostoiévski, poderemos sucintamente dizer que nasceu em Moscovo e, por volta dos seus 15 anos, foi para São Petersburgo, onde se formou em Engenharia na Academia de Engenharia Militar. Durante esses anos, começou a se relacionar com o Círculo Petrashevsky, um grupo de intelectuais que discorriam, entre outros assuntos, sobre o Socialismo Utópico. Em Abril de 1849, ele e os outros membros do Círculo foram presos sob a acusação de conspirarem contra Nicolau I. Após passar oito meses na prisão, foi-lhe ordenada a pena de morte, sentença que foi anulada no preciso momento em que Dostoiévski estava já perante o pelotão de fuzilamento. Foi, então, sentenciado a quatro anos de detenção num campo de trabalhos forçados na Sibéria. Aí, Dostoiévski passou por um processo de “regeneração” das suas convicções que o levou a alterar o entendimento que tinha acerca da religião e da política.

Após o seu regresso da Sibéria 10 anos depois, em finais da década de 1850, Dostoiévski irá passar grande parte da década seguinte na Europa Ocidental.

Pensamos que é da máxima confiabilidade a asserção que todos esses acontecimentos marcantes, pelos quais Dostoiévski passou, contribuíram fortemente para elevar a excelsitude da sua vasta produção literária, na qual ele medita sobre a condição humana, perscrutando tanto os recessos mais sombrios da mente humana, como os seus estados de maior ​​luz.

Ressaltaremos, desta feita, o Crime e Castigo, romance que começou a ser publicado, primeiramente, num jornal literário em fascículos mensais ao longo do ano de 1866, sendo, mais tarde, nesse mesmo ano, publicado num único volume.

Será que as pessoas “extraordinárias”, como, por exemplo, Napoleão, agem por um propósito maior par além da lei moral convencional que rege a vidas dos seres “comuns”, sendo-lhes, assim, reconhecido o “direito de transgredir”?

É este o dilema que atormenta o protagonista do romance, o jovem Raskolnikov (o “cismático”), para quem, inicialmente, o bem e o mal são em si puros preconceitos, meras categorias da religião, e que, assim moralmente falando, o “crime”, enquanto tal, não existe.

É imbuído deste espírito, que o desesperado Rodion Romanovich Raskolnikov decide resolver todos os seus problemas de uma só vez, assassinando uma velha penhorista, sem qualquer laivo de remorsos ou de arrependimento — pois ele se julga um grande homem!

No entanto, a dado momento, o jovem Raskolnikov sente apossar-se do seu espírito um “terror místico” pelo acto cometido, tentando, em vão, descobrir o real motivo do seu crime. Assim, com o passar do tempo, a culpa que o persegue vai-se avolumando a ponto de lhe ser insuportável continuar a abstruí-la, levando-o, desse modo, à confissão e, de algum modo, à busca de redenção.

Dostoiévski não escreveu tanto sobre a punição formal do crime, conforme os princípios do direito, mas mais acerca da expiação interior decorrente da culpa que subseguiu ao delito cometido.

Raskolnikov é tido como um dos personagens mais notáveis e mais complexos de toda a literatura e o Crime e Castigo, sendo um dos romances mais influentes do século XIX, é, amiudadamente, considerado uma das obras maiores da literatura mundial. 

A terminar estas breves palavras à volta deste notável romance e do seu insigne autor, diremos, tão-só, que a preeminência de Dostoiévski é de tal monta que o seu pensamento influenciou figuras da dimensão de, por exemplo, Anton Chekhov, André Gide, Ernest Hemingway, Friedrich Nietzsche ou Jean-Paul Sartre.

Adiremos, num breve apontamento, o espanto e o sobressalto sentidos pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche quando, por mero acaso e simples curiosidade, começou a folhear, numa livraria, no sul de França, um livro de um escritor que ele, então, desconhecia. Nietzsche afirmou, então, que aquele tipo de escrita esdrúxula e excepcional provocara nele um “choque intelectual” só comparável à estupefacção sentida aquando das suas descobertas de Schopenhauer e de Stendhal.

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