Penso que não poderíamos começar estas nossas conversas à volta de — grandes — filmes de modo mais esplendente.
Iremos dedicar alguma da nossa atenção a um filme, unanimemente considerado como uma das grandes obras da história do cinema. Falamos, justamente, de A Palavra, do realizador dinamarquês Carl Theodor Dreyer, filme que, após uma longa e paciente preparação de 23 anos, foi, em boa hora, realizado em 1955, tendo sido galardoado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza desse ano.
Antes de continuarmos a discorrer acerca deste espantoso filme de Carl Dreyer, dediquemos algumas breves, mas justas palavras a um grande vulto da cultura portuguesa. Falamos de João Bénard da Costa (1935 – 2009), cinéfilo, crítico de cinema e ensaísta. Intelectual de uma enorme dimensão cívica, moral e política, João Bénard da Costa presidiu à Juventude Universitária Católica, ajudou a fundar O Tempo e o Modo, foi dirigente do Centro Nacional de Cultura, tendo sido, igualmente e por longos anos, diretor da Cinemateca Portuguesa. Podemos, prazerosamente, enfatizar que Bénard da Costa, uma das mais distintas figuras da cultura portuguesa, contribuiu, de forma decisiva, para a divulgação e conhecimento da história do cinema. Recordemos, tão-só, os textos de apresentação dos filmes, as preciosas “folhas da Cinemateca”, que parecem terem sido caso único no universo das Cinematecas europeias. Serão essas “folhas” que irão acompanhar, sempre que possível, as nossas conversas à volta dos filmes que, a seu tempo, ir-nos-ão fazendo companhia.
Retomemos o fio da conversa acerca de Ordet (A Palavra).
O filme A Palavra narra a história de uma comunidade rural remota, na Dinamarca, na década de 1920, onde duas famílias, os Borgen e os Petersen, estão divididas pela fé religiosa, de tal sorte que se assiste a um vazio comunicacional, que tanto se manifesta em mal-entendidos, como se materializa até numa total incomunicabilidade. O fazendeiro Borgen tem três filhos: Mikkel, um agnóstico cuja esposa, a conciliadora Inger, está grávida do terceiro filho, Johannes, que, inspirado pelo Espírito Santo após estudar Kierkegaard, acredita ser Jesus Cristo, e o jovem Anders.
O alfaiate Petersen tem uma filha, Anne, que é pretendida pelo jovem Anders, mas que motivos de ordem religiosa impedem que casamento entre ambos vá por diante.
No entanto, quando Inger passa por um parto difícil, os dois patriarcas começam a ter o entendimento de quão frívola é a irredutibilidade das suas crenças religiosas. Inesperadamente, Inger, devido aos problemas com a gravidez, acaba por falecer, deixando todos num profundo pesar. É, então, que uma das suas duas filhas insta a Johannes que ressuscite a sua mãe. Johannes roga a Deus que lhe dê de novo a Palavra, ou seja, o poder de ressuscitar. Como resultado, Inger ressuscita. E, assim, um milagre acontece!
Carl Dreyer, neste filme deslumbrante e arrebatador, reflete sobre a natureza da crença ou, mais precisamente, sobre a desconformidade que pode existir entre a religiosidade e a fé.
João Bènard da Costa, na sua “folha da Cinemateca” dedicada a este filme, exibido, precisamente na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, nos dias 15 e 19 do mês de Novembro de 2007, escreve o seguinte: “No cinema não há nada mais fácil do que conseguir um milagre. Todos sabem que a atriz que está a fazer o papel de Inger não está morta e que ressuscitá-la depende apenas de uma ordem do realizador. Mas o prodígio daquela mise en scène (desde a composição dos planos à sua iluminação) é fazer-nos acreditar que, na verdade, vimos um milagre e vimos um corpo morto ressuscitar em toda a glória da vida.
(…) Vi isso acontecer (e é, sem dúvida, o mais pasmoso dos milagres) neste filme. Se me disserem que é cinema eu respondo que não é, não”.
(Esta nossa conversa em torno de A Palavra será acompanhada, justamente, pela “folha da Cinemateca” já mencionada mais acima.)
Carl Th. Dreyer é, muito justamente, considerado um dos grandes realizadores da história do cinema, sendo este belo filme, de que aqui damos nota, Ordet (A Palavra), considerado a sua obra-prima.