No final dos anos de 1930, o então jornalista Graham Greene (1904 – 1991) foi enviado ao México para relatar a situação que, então, se vivia naquele país, em particular no estado de Tabasco, em virtude das perseguições levadas a cabo pelo Estado contra a Igreja Católica, na decorrência da revolta dos “Cristeros” que tivera lugar na década anterior.
Do material colhido a partir das suas observações e dos seus registos, o romancista, contista, dramaturgo e jornalista inglês Graham Greene constrói um extraordinário romance, no qual narra as desventuras e as tribulações do único sacerdote católico que continuou, durante a década de 1930, a exercer de modo clandestino o seu ministério, apesar de perseguido constantemente pela polícia.
Graham Greene, que alcança com O Poder e a Glória a sublimidade de uma extensa e admirável obra literária, possui, ainda, títulos como, por exemplo, O Fim da Aventura, de 1951, O Cônsul Honorário, de 1973, ou O Terceiro Homem, livro de 1949, que fora escrito como argumento para um filme realizado pelo britânico Carol Reed. Adiantaremos, ainda, como mais uma nota de realce, que esse filme, que conta com os extraordinários desempenhos de Orson Welles e Joseph Cotten, sendo considerada uma das grandes obras do cinema negro, alcançou, nesse ano de 1949, o Grande Prémio do Festival Internacional de Cinema de Cannes.
De Orson Welles e Joseph Cotton voltaremos seguramente a falar, aqui ao lado na Janela Indiscreta. Não perderemos, no entanto, a oportunidade para recordar um belo filme de Alfred Hitchcock, Sob o Signo de Capricórnio, de 1949, com os desempenhos de, lá está, Joseph Cotten e, da sempre deslumbrante, Ingrid Bergman.
Continuando a discorrer acerca desse fabuloso romance de 1940, O Poder e a Glória, podemos dizer que o autor nos coloca diante de um padre católico que vivia como fugitivo, cheio de medos, embora o dever e a misericórdia o convoquem de cada vez que alguém se sente necessitado do seu auxílio. É esse padre, debilitado pela bebida, que sofre com o peso dos seus pecados, de entre os quais a quebra do celibato, com o remorso de ter uma filha, que tenta cumprir os seus deveres sacerdotais apesar da constante ameaça de morte.
O confronto entre a fraqueza humana e o dever da honradez que, constantemente, assola o espírito desse sacerdote surge-nos logo no início do romance quando, na iminência de fugir de Tabasco, a bordo de um navio que estava prestes a zarpar, ele vê-se confrontado com o dever de auxílio, perdendo desse modo o navio e a oportunidade de, mais uma vez, fugir das autoridades locais.
Por incidências várias decorrentes das perseguições religiosas, esse padre sem nome é o único que, mesmo atormentado pela culpa, pelo pecado e pelo medo, persiste em fazer o que acredita ser importante — fornecer os sacramentos e o conforto espiritual àqueles que ele jurou servir.
O Poder e a Glória narra, assim, uma história poderosa e envolvente sobre a fragilidade humana, a ambiguidade moral, a fé, o dever, o sacrifício e o amor.
Nesse livro, considerado um dos grandes romances do século XX, o autor discorre, de forma pungente, sobre as complexidades da culpa, da crença e da persistência da esperança.
A findar este breve texto à volta desse excepcional romance, pedir-lhe-emos de empréstimo uma bela frase que nos interpela, justamente, acerca da necessidade da esperança:
“A esperança é um instinto que só o raciocínio humano pode matar. Os animais desconhecem o desespero.”
Ainda a propósito de O Poder e a Glória (“The Power and the Glory”), daremos uma breve, mas prazenteira, nota da editora para a qual o livro fora, em tempos, traduzido, por António Gonçalves Rodrigues, para a língua portuguesa. Falamos, com efeito, de Livros do Brasil, mais precisamente, da Colecção Dois Mundos.
Essa inestimável Colecção Dois Mundos, em que O Poder e a Glória era o registo nº 42, compreendia títulos tão extraordinários como, e.g., O Fio da Navalha, do escritor britânico Somerset Maugham, ou Paris é uma Festa, do escritor americano Ernest Hemingway, de que falaremos, seguramente, lá mais adiante.