Antígona

Estes tempos esdrúxulos que habitamos, tempos de grande desordem, voracidade e sofreguidão, são falhos de uma estrutura de fortitude, pois a imensa massa de dados, que nos é transmitida de modo serial e fragmentado, impele-nos a transitar de uma experiência para outra, de uma sensação para a seguinte, sem encerrar nada de modo consolidado e contemplativo.

Somente as narrativas criam um nexo e uma contextura. Ao invés, a ordem digital não consente a imponderabilidade de um acontecimento, a tardança de uma reflexão ou a profundez de uma exegese.

O incessante fluxo de informação a que estamos sujeitos obriga a uma permanentemente estimulação dos nossos órgãos sensoriais. De modo averso, as repetições fazem com que a atenção se consolide e se reforce. A repetição é o traço distintivo dos rituais. Como nota de enorme valimento, sinalizaremos que o ritual é diverso da rotina, porquanto transporta consigo um propósito.

Segundo Sasha Sagan (n. 1982), os rituais, “enquanto hábitos proporcionam tranquilidade e consistência, rituais criam significado, fornecem uma âncora e, quanto mais vezes eles acontecem (seja diária, semanal ou mensalmente), mais significado eles ganham.”

Podemos, assim, dizer que os rituais, enquanto actos simbólicos (o símbolo propicia o reconhecimento), estruturam as nossas vidas, uma vez que prefiguram e veiculam valores.

Façamos, então, uma suspensão neste nosso bulício inconsequente para podermos, serenamente, recuar o nosso olhar até ao Séc. V a.C. — mais precisamente ao Século de Péricles!

No entanto, será de toda a conveniência convidarmos uma daimon que nos predisponha à moderação e à discrição — Sofrósine — para que concedamos a nós próprios algum vagar que a reflexão sobre as matérias que iremos abordar requer.

Péricles (c. 495 – 492 a.C.) foi um eminente estadista, orador e general grego que ajudou, de forma imperativa, a conduzir Atenas ao seu período de maior esplendor.

Podemos afirmar que Péricles viveu entre as Guerras Médicas e a Guerra do Peloponeso. As primeiras resultaram da oposição dos gregos ao império persa, no seu propósito de conquista da Jónia, na Ásia Menor. A vitória dos gregos sobre os persas, com o concomitante desenvolvimento artístico e cultural da Grécia, em particular da cidade de Atenas, marca o início do Período Clássico que irá estabelecer as fundações da Civilização Ocidental.

Por seu lado, a Guerra do Peloponeso opôs a cidade-estado de Atenas e a Liga de Delos, formada no decurso das Guerras Médicas, à cidade-estado de Esparta, terminando com a vitória desta última.

Estas breves linhas, acerca do período histórico mediado por aqueles dois conflitos, servem para que tenhamos um melhor entendimento do tempo de maior resplandecência do teatro grego, em particular da tragédia, em que um dos seus mais notáveis cultores foi Sófocles — a par de Ésquilo e de Eurípedes.

A indisputável relevância desse período da História da Humanidade reclama que a ela regressemos, numa outra ocasião e num outro tempo, para lhe dedicar, com toda a aceitabilidade, uma mais cuidada e fina atenção.

Por ora, detenhamo-nos na figura de Sófocles, começando por dizer que nasceu em Colono, perto de Atenas, provavelmente em 496 a.C., teve uma educação esmerada e foi um inovador tanto ao nível da escrita das peças, como no modo das suas representações. Durante a sua longa vida, Sófocles escreveu mais de 123 peças, sendo conhecidas mais de 100 através dos seus títulos ou de simples fragmentos. Da sua extensa dramaturgia, apenas sete tragédias completas chegaram até nós. Devido à sua prestigiosa produção, Sófocles é tido como um dos mais insignes e influentes autores da História da Literatura.

Como breve nota, provida, no entanto, de tempestividade, adiantaremos que Sófocles foi amigo de Heródoto e de Péricles.

Sófocles morreu em 406 a.C., por alturas da Guerra do Peloponeso, cujo desfecho significaria o início do fim do domínio ateniense. Conta-se que, então, foi acordada uma suspensão das hostilidades para que as suas exéquias se realizassem de modo próprio e adequado, e consonante com a grandeza da sua figura.

De entre as suas notáveis criações destaca-se o Édipo Rei, que Aristóteles, na sua Poética, considerou o mais perfeito modelo de tragédia.

No entanto, desta feita, iremos andar à volta de uma outra sua obra-prima, a Antígona, escrita cerca do ano de 442 a.C.

Como um breve apontamento de todo em todo adequado, diremos que a Antígona é parte da trilogia das tragédias do Ciclo Tebano, escritas por Sófocles — juntamente com o Édipo Rei e o Édipo em Colono.

A acção de Antígona tem lugar na cidade de Tebas, devastada pela guerra civil. Após Édipo ter deixado a cidade, seus filhos, Etéocles e Polinices, disputam o poder pela força, em vez de o partilharem, como tinha sido estabelecido. Ambos morrem durante a refrega, deixando o poder ao familiar mais próximo, o seu tio Creonte. Após assumir o poder, o seu primeiro édito estatui que as cerimónias fúnebres de Etéocles decorram com as honras devidas e que o corpo de Polinices não seja sepulto, sendo, assim, abandonado. Mais ordena que quem desacatar tal preceito, será condenado à morte. Antígona conta a sua irmã Ismena o que acabara de saber acerca da disposição do seu tio Creonte.

Antígona, irmã de Polinices e Etéocles, considera ser uma desonra intolerável não enterrar um dos irmãos, decidindo, então desafiar o seu tio, mesmo que para tal tenha de pagar com a própria vida. Em face da sua desobediência, ela é levada perante o seu tio.

Antígona evoca na sua defesa o cumprimento das leis dos deuses, que consistiam na salvaguarda de um mínimo de dignidade que merece um ser humano independentemente da sua culpa, enquanto Creonte advoga o dever de cumprimento das leis da pólis.

Filha incestuosa de Édipo e Jocasta, Antígona é a mais intrépida e sublime expressão do amor filial e fraterno, que enfrenta com destemor e altivez a tirania, contrapondo, à razão de Estado, um imperativo de consciência.

Curiosamente, ambos, Creonte e Antígona, falam de lei e de justiça, sendo, no entanto, os sentidos das suas palavras profundamente dessemelhantes.

Nesta notável tragédia, Sófocles discorre sobre o conflito patente entre a moral particular e a pública, entre a lei divina e a humana.

Antígona posiciona-se, de modo irretorquível, nessa contenda, faz a sua escolha e age com uma coragem inesperável para uma mulher do seu tempo — a Grécia Antiga!

O epílogo da peça acolhe, entre outras ocorrências, a condenação das duas irmãs à pena capital, sendo, entretanto, Ismena eximida do cumprimento de tal castigo; quanto a Antígona, perante tão dura pena, encarrega-se de pôr termo à vida. 

Daremos nota de uma edição para a língua portuguesa, com tradução, prefácio e notas de Fernando Melro, para a Editorial Inquérito, mais precisamente, do nº 4 da sua colecção Clássicos Inquérito, do editor Francisco Lyon de Castro.

Se quisermos ter um melhor entendimento do percurso desse excepcional texto, teremos de recuar até cerca do ano 1000, onde encontraremos, na Biblioteca Laurenciana de Florença, o manuscrito Mediceus (Laurentianus xxxii 9), tido como a mais antiga cópia existente da Antígona. Igualmente digna da maior relevância, parece ser a cópia que iremos encontrar um pouco mais tarde, no Séc. XIII, na Biblioteca Nacional de Paris, o manuscrito Parisinus 2712. 

A terminar este curto texto em torno dessa bela e admirável obra, adiantaremos numa nota, com toda a adequação e pertinência, que a editio prínceps da Antígona saiu do prelo, em Veneza, no ano de1502, por meio da Editora Aldina, do preclaro humanista, editor e tipógrafo Aldus Manutius (1449 – 1515). 

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