The Musical Box

O rock progressivo, ou prog rock, é um género musical surgido, numa primeira fase, na Grã-Bretanha e seguidamente nos Estados Unidos, na segunda metade da década de 1960, estendendo-se, grosso modo, na sua fase de maior criatividade e resplandecência, até aos finais da primeira metade da década seguinte. Esse período do rock, que fora buscar raízes ao folk, à música clássica ocidental e ao jazz, pode ser caracterizado pela experimentação, pelo virtuosismo instrumental e pelas harmonias complexas das suas composições. Esse género musical é, também, reconhecido pelo tipo de letras fantasiosas de grande riqueza poética, que engendravam, desse modo, surpreendentes universos oníricos tributários, por vezes, de temáticas da literatura fantástica. É, ainda, característico desse género musical a opção por álbuns conceptuais cujas canções, de duração inusitadamente longa, eram, a mais das vezes, encadeadas com o propósito de contar uma história. Uma parte relevante do ideário do prog rock era escorada nas belíssimas capas dos álbuns que contribuíram com a sua imagética, não poucas vezes fabular, para produzir objectos artísticos de uma beleza invulgar, como aconteceu, por exemplo, com as criações do artista e designer britânico Roger Dean para bandas como Yes ou Osibisa. Outro incrível projecto de design gráfico artístico foi protagonizado pelo Hipgnosis, o inovador estúdio de design criado por Storm Thorgerson e Aubrey Powell, que foi responsável por algumas das mais icónicas capas de álbuns de bandas como Pink Floyd ou Led Zeppelin. Não deixaremos de enfatizar o artista suíço Hans Ruedi Giger responsável pela criação da fabulosa capa do álbum Brain Salad Surgery da banda britânica Emerson, Lake & Palmer — como breve nota do maior realce, diremos, tão-só, que Hans Ruedi Giger é o criador de toda a ambiência visual de Alien, filme de 1979 realizado por Ridley Scott.

Uma das grandes bandas desse período é o Génesis, seminal grupo britânico, liderado por PeterGabriel, um músico de excelência com um especial talento para a teatralidade heteróclita. Essa magnífica banda, composta por extraordinários músicos como Steve Hackett, Tony Banks, Phil Collins ou Mike Rutherford, à qual iremos seguramente retornar, produziu álbuns de uma invulgar beleza, de entre os quais o espantoso The Lamb Lies Down on Broadway, de 1974, duplo álbum de uma qualidade tal que é considerado por muitos como a quinta-essência do rock progressivo. Esse esplêndido álbum foi apresentado, em Portugal, no Dramático de Cascais, em Março de 1975, em dois dias consecutivos, nas vésperas do 11 de Março — data que dera, então, início ao Verão Quente que acelerou a História, em Portugal, nesses tempos pós-revolução de 25 de Abril de 1974.

Iremos ouvir, dessa formidável banda, uma música do seu terceiro álbum de estúdio, Nursery Cryme, editado, em 1971, pela editora discográfica britânica The Famous Charisma Label. Passaremos à escuta da longa e bela canção The Musical Box, num registo ao vivo na televisão belga, no mês de Março do longínquo ano de 1972.

Numa nota breve, pensamos que é de toda a aceitabilidade asseverar que o grafismo do label (rótulo) da editora que surge no vinil daquele álbum — onde podemos ver alguns personagens de Alice no país das Maravilhas, de entre os quais The Hatter, segundo a ilustração criada, em 1865, pelo cartoonista e ilustrador inglês Sir John Tenniel — ajudou a estabelecer um diálogo acurado e lógico entre dois imensos territórios plenos de muitos sortilégios, de muita inventividade e de muitos encantamentos, a saber, a fabulosa e excepcional paisagem musical dos Génesis e a admirável fabricação do universo de Alice no País das Maravilhas levado a cabo pelo matemático, poeta e escritor britânico Lewis Carroll.

https://www.youtube.com/watch?v=W35wtfcByIY

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