O Estrangeiro

O Estrangeiro; Albert Camus

O Estrangeiro, de Albert Camus, começa sintomaticamente com as seguintes palavras:

Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.

O livro, que é todo narrado pelo protagonista da história, de seu nome Meursault, vai-nos retratar a alienação, a ambiguidade e a falta de clareza dos sentimentos de um indivíduo que se auto-exclui da sociedade por se recusar a seguir as normas impostas. Contudo, esta sua postura não é a materialização de um acto de rebeldia ou inconformismo, traduz tão-só o sentimento de que nada tem valor suficiente para captar a sua atenção.

Através da anormal e quase absurda indiferença do protagonista, deparamo-nos com uma esdrúxula perspectiva da vida, alheia a sobressaltos, ao incómodo da tomada de decisões, que não se entrega à extravagância das emoções ou à indignação contra o destino. Meursault é um modesto funcionário público, sem grandes interesses, que vive uma vida banal, avesso a predisposições moralistas e sentimentais, que permanece apático e vai ultrapassando as contrariedades da vida através do hábito.

Poderíamos, mesmo, afirmar que as atitudes, os comportamentos e as usanças de Meursault apontam para uma natureza caracterizada por uma estranha e inusual acídia.

Na decorrência da notícia contida nas palavras com que começamos este breve texto, Meursault vai às exéquias da sua mãe, durante as quais revela uma absoluta impassibilidade, não mostrando qualquer tipo de pesar. A sua incomodidade advém, ao invés, menos do falecimento da mãe do que da sensação asfixiante de calor que se fazia sentir naquele dia. Penso que é possível sinalizar, de modo ajustado, que o calor é, aliás, a sensação que predomina, implacável, durante toda a obra. O sol pode, de tal sorte, ser considerado, com toda a propriedade, um personagem do livro.

De regresso a casa após o funeral, ele age como se nada de incomum tivesse acontecido. Um dia após o enterro da sua mãe, ele, alheado de tal facto, vai à praia, onde encontra uma colega de trabalho, com quem combina ir ao cinema à noite. Mais tarde, no decorrer da narrativa, ocorre algo que irá mudar por completo o rumo do romance. É, pois, numa ida à praia num tórrido dia de Domingo que, num acto inconsiderado e desprovido de qualquer motivo tangível, o pacato Meursault comete um fútil, porém hediondo, assassinato, pelo qual é preso e levado a julgamento.

É a partir desse momento que a vida de um homem banal, completamente abúlico e desapegado da vida, das pessoas e do seu próprio destino, irá ser sujeita a uma radical, infausta e inexorável transformação.

A narrativa de O Estrangeiro, sob uma aparente singeleza estilística, é atravessada por uma sensação de estranheza e de absurdidade, onde tudo é muito claro e, ao mesmo tempo, nada parece fazer sentido.

Este primeiro romance de Albert Camus, publicado originalmente em 1942 e considerado um dos principais títulos do existencialismo francês, é tido, indubitavelmente, como uma das mais notáveis obras de toda a produção literária do século XX.

Roland Barthes definiu-o como “o primeiro clássico do pós-guerra”.

Como breve nota, referiremos que O Estrangeiro integra a colecção da editora Livros do Brasil, numa tradução efectuada por António Quadros, constando desta edição uma longa introdução de Jean-Paul Sartre.

Albert Camus (1913 – 1960) foi um pensador franco-argelino de uma enorme verticalidade moral, intransigente na defesa dos seus princípios que, para além de romancista, foi também filósofo — a sua tese de doutoramento foi sobre Santo Agostinho —, jornalista e dramaturgo. Referiremos, no âmbito da sua faceta de dramaturgo, a versão teatral do romance Os Demónios, de Dostoievski, levada a cabo por si e consubstanciada na peça em três actos sob o título de Os Possessos.

Sinalizaremos, a terminar este breve texto, que Albert Camus foi galardoado, em 1957, com o Nobel da Literatura, de cujo discurso de aceitação retiraremos o seguinte trecho:

“Cada geração sente-se, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. (…) esta geração tem o débito, para consigo e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir das suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer.”

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