Penny Lane

A 11 de Outubro de 1962, o papa João XXIII deu início ao vigésimo primeiro Concílio Ecuménico da Igreja Católica. O Concílio Vaticano II, como é comummente conhecido, foi um dos mais importantes concílios da igreja Católica, a par, por exemplo, do Primeiro Concílio de Niceia, que teve lugar no ano de 325, ou do Concílio de Trento que decorreu entre os anos de 1545 e 1563.

Na prodigiosa década de 1960, onde tiveram lugar profundas mudanças tanto no âmbito religioso como no campo político, social e cultural, para além do já referido Concílio Vaticano II, aconteceu também a grandiosa Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade, realizada em Washington D.C., a 28 de Agosto de 1963, com o propósito de defender os direitos civis dos afro-americanos e pugnar, assim, por uma sociedade mais justa, onde se assistisse a uma maior igualdade racial. Foi nessa histórica Marcha sobre Washington, que contou com mais de 250 000 pessoas, que o reverendo Martin Luther King Jr. proferiu, diante do Lincoln Memorial, aquele que é considerado um dos mais notáveis — senão omais notável — discursos do século XX, o renomado discurso “I Have a Dream”, no qual exorou pelo fim do racismo e da segregação racial. Foi igualmente na década de 1960, mais propriamente em finais do mês de Janeiro de 1968, que se assistiu a um recrudescimento da Guerra do Vietname, a denominada Ofensiva de Tet, o que contribuiu para a intensificação dos protestos contra a intervenção militar norte-americana naquela região do sudoeste asiático, com manifestações que, pela sua relevância, pelo seu simbolismo e pelo seu alcance, foram uma parte importante do denominado movimento de contracultura.

Ainda no ano de 1968, poderíamos sinalizar o arrojo da tentativa de empreender um movimento político reformador na extinta Checoslováquia. Esse movimento, liderado por Alexander Dubček, ficou conhecido como Primavera de Praga.

Nesse mesmo ano, teve lugar em Paris uma onda de protestos conhecida como Maio de 68. A “crise” de Maio de 1968 que começou por ser uma contestação estudantil, tornou-se na expressão de um mal-estar sentido por uma geração que entendia que os tempos que estavam a viver exigiam novos modos de sentir e de perceber a sociedade.

É assim, nessa singular década de 1960, ávida de profundas mudanças, que testemunhou a prossecução do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos da América e a luta pelos direitos das mulheres, que emergiu o movimento de contracultura como uma tentativa de propor uma abordagem alternativa aos modos de vida então vigentes. Inserida nesse movimento, assistiu-se a uma autêntica revolução cultural, com epicentro na Swinging London, protagonizada, no campo da música, por bandas como The Beatles, The Rolling Stones, The Animals, The Yardbirds ou The Kinks. No domínio da moda, designers como a Mary Quant ou modelos como a Twiggy contribuíram, também elas, para a subversão das convenções de um tempo que carecia de novas e diferentes narrativas. Essa revolução cultural, que teve um enorme impacto no outro lado do oceano Atlântico, mais propriamente nos Estados Unidos — estendendo-se depois a outras geografias —, ficou conhecida como a British Invasion, sendo os Beatles considerados os intérpretes de maior proeminência desse excepcional movimento. A chegada dos Beatles a Nova Iorque, a 7 de Fevereiro de 1964, pode ser considerada como o momento inaugural desse marcante fenómeno cultural que, ao influenciar a vida social, política e cultural de uma geração inteira, contribuiu para a alteração dos padrões de comportamento, então, existentes. Podemos, assim, enfatizar que a British Invasion, uma das vertentes mais relevantes do movimento de contracultura, promoveu profundas e significativas transformações numa geração que ansiava por diferentes perspectivas que respondessem aos desafios de um tempo novo — nesse mesmo ano de 1964, Bob Dylan profetizava que The Times They Are A-Changin’.

Os Beatles, ao longo do seu impressionante percurso, produziram obras seminais como, por exemplo, Rubber Soul, de 1965, Revolver, álbum de 1966, ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o álbum de 1967 que pareceu congregar em si todos os traços distintivos do movimento de contracultura da década de 1960.

Dos vários nomes que facilmente associamos ao fabuloso trajecto dos Beatles, como, por exemplo, o produtor musical norte-americano Phil Spector, existem duas figuras que são inescapáveis para melhor se entender a história dessa excepcional banda: referimo-nos ao empresário musical inglês Brian Epstein e ao produtor musical, compositor, maestro e inglês Sir George Martin.

Podemos asseverar, com toda a aceitabilidade, que os Beatles mudaram e moldaram o curso da história da música popular e da cultura de uma geração inteira, sendo, assim, justamente, considerados como a mais influente banda da história da música popular.

Após algumas alterações na constituição do grupo, a partir de 1962 os Beatles fixaram a formação com a qual passaram a ser conhecidos e celebrados. Foi nesse longínquo ano, mais precisamente em Outubro, que foi lançado o seu primeiro single: Love Me Do. Referiremos, a título de curiosidade histórica, que o mês de Outubro de 1962 assistiu também ao lançamento de Dr. No, primeiro filme da magnífica série James Bond, protagonizada pelo, não menos preexcelente, actor escocês Sean Connery.

No ano de 1966, os Beatles decidiram renunciar aos concertos ao vivo para, assim, se remeterem aos estúdios e aí empenharem toda a sua genialidade à experimentação de novas sonoridades. De ressaltar, no entanto, que nessa prodigiosa aventura que terminou em 1970, ainda houve lugar para um último concerto ao vivo, o memorável Rooftop Concert, que se realizou no telhado do edifício da editora Apple em Londres, a 30 de Janeiro de 1969, e que contou com a participação do teclista americano Billy Preston.

Neste breve, logo exíguo, texto sobre os Beatles, iremos, ainda assim, verter algumas notas soltas: começaremos por referir que aquando da sua primeira estada nos Estados Unidos, o grupo actuou, a 9 de Fevereiro, no programa de televisão Ed Sullivan Show perante uma audiência acima dos 73 milhões de telespectadores, mais de um terço da população americana. Foi nessa sua estadia no outro lado do Atlântico que ocorreu um acontecimento de particular significância musical e cultural, o encontro dos Beatles com Bob Dylan. Nesse mesmo ano, os Beatles fizeram ainda a sua estreia no cinema com a comédia musical A Hard Day’s Night, filme que pode ser apontado como um precursor dos videoclips. Sinalizaremos, a seguir, que o sexto álbum de estúdio, o fabuloso e influente Rubber Soul, lançado em finais de 1965, é, por muitos, considerado como a primeira abordagem a novas sonoridades — mais experimentais — e, no qual, eles começaram, de igual modo, a explorar novos ângulos de escrita de molde a reflectir e, de certa forma, a responder à desinquietação de toda uma geração. Rubber Soul é, comummente, apontado como um marco miliário a partir do qual os álbuns começaram a ser vistos, indubitavelmente, como objectos artísticos. Nunca é de mais realçar que o carácter verdadeiramente revolucionário desse magnífico álbum contou com o engenho e a inventividade de George Martin. Consta que o genial Brian Wilson, dos Beach Boys, terá considerado Rubber Soul como o melhor LP de todos os tempos.

Sinalaremos também que a 13 de fevereiro de 1967, os Beatles lançaram, num mesmo single, Strawberry Fields e Penny Lane, duas admiráveis canções que, no dizer do escritor e ensaísta norte-americano Adam Gopnik, instituiriam o dito single como “a obra de arte mais significativa produzida na década de 1960”.

Notaremos ainda que em Junho de 1967, em pleno Summer of Love, fomos surpreendidos com o magnífico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, obra que podemos dizer que se traduziu numa das primeiras manifestações do art rock — movimento artístico que tentou juntar a arte contemporânea, a avant-garde, a música experimental, a par da música clássica e do jazz — tanto no soberbo conteúdo musical como na surpreendente e fabulosa concepção da capa levada a cabo pelos artistas Peter Blake e Jann Haworth, dois nomes de referência dentro do movimento da Pop Art.

Mencionaremos, igualmente, que em Setembro de 1969 é lançado Abbey Road, que se constitui como o álbum mais vendido dos Beatles e um dos discos com maior sucesso comercial na história da música popular e que é apontado, por muitos, como o melhor álbum da banda.

Embora Paul McCartney e John Lennon sejam considerados, de modo incontendível, compositores superlativos, George Harrison, o quiet Beatle, foi também um excelente escritor de canções, sendo da sua autoria Something, canção incluída em Abbey Road e tida, frequentemente, como uma das grandes canções dos Beatles.

Ainda iremos a tempo de referir que, em Maio de 1970, foi lançado o último álbum dos Beatles, Let It Be, embora a sua gravação tenha sido anterior à gravação de Abbey Road.

Ficou aqui contada, em parcas palavras, a prodigiosa jornada de um extraordinário grupo que mudou irreversivelmente o panorama, diria a face, da música e da cultura populares. Para sublinhar o carácter excepcional desse percurso, diremos, tão-só, que quando do lançamento de Love Me Do, em Outubro de 1962, George Harrison tinha somente 19 anos, Paul McCartney tinha 20 e Ringo Star e John Lennon tinham 22 anos cada um.

Dada a sua relevância, os Beatles irão ser, nestas nossas itinerâncias, uma companhia “muito-cá-de-casa”. Começaremos, desta feita, por ouvir uma canção que fala de uma ignota rua suburbana de Liverpool, lugar de referência meramente local, que a genialidade de Paul McCartney elevou ao estatuto de um dos grandes ícones da história da cultura pop, sendo considerada uma das mais primorosas canções alguma vez escritas.

A canção em apreço é, obviamente, Penny Lane, onde:

               “(…) On the corner is a banker with a motorcar
                 And little children laugh at him behind his back(…)”

https://www.youtube.com/watch?v=S-rB0pHI9fU

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