“Meu relato será fiel à realidade ou, em todo o caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que é a mesma coisa.”
Devo ter adquirido O Livro de Areia por volta do mês de Maio no já longínquo ano de 1997, uma quarta edição daquela obra que fazia parte da Colecção B, da Editorial Estampa. Essa colecção albergava, entre outros deliciosos livros, todos de capa preta, por exemplo, os Contos Fantásticos de Ernst Hoffmann, ou o Fausto de Johann W. Goethe, na tradução de Luiza Neto Jorge sobre a versão francesa de Gérard de Nerval.
Sob esse título, O Livro de Areia — nome desta categoria — abriga-se uma coletânea de excelentes contos de Jorge Luis Borges (1899 – 1986), poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.
Jorge Luis Borges, que foi um ávido leitor de enciclopédias — considerava, em particular, a IX edição da Encyclopædia Britannica a sua enciclopédia preferida —, discorre, no conto, publicado em 1940, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, acerca de uma enciclopédia engendrada por uma sociedade secreta, na qual é afirmado que “os metafísicos de Tlön não buscam a verdade, nem sequer a verosimilhança: buscam o assombro.”
Penso que a escrita de Jorge Luis Borges, pelo menos nos seus contos, habita, justamente, esse território provido de muitos sortilégios e encantamentos e no qual poderemos encontrar, por exemplo, duas magníficas compilações de contos curtos: O Aleph — livro publicado em 1949, que acolhe, por exemplo, A busca de Averróis — ou A História Universal da Infância — livro que deu ao prelo em 1945, onde surge A Viúva Ching, Pirata.
Ainda a propósito de enciclopédias — conceito que deriva de dois termos gregos que, por lapso, se converteu numa palavra única, que significa “educação geral” —, adiantaremos que Jorge Luis Borges, de forma avisada, alertou-nos para o seguinte facto:
“Quem adquire uma enciclopédia não adquire cada linha, cada parágrafo e cada figura; adquire a mera possibilidade de conhecer algumas dessas coisas.”
Dispensaremos mais umas breves linhas a outra faceta de Jorge Luis Borges, evidenciada em Borges Oral, um livro que reúne o conjunto de cinco aulas proferidas por Jorge Luis Borges na Universidade de Belgrano, em 1978, a convite daquela instituição. Nesse conjunto de palestras, Borges revelou-se um grande mestre da oralidade, ele que na parte final da sua vida perdera a visão, tal como já acontecera com o seu pai.
Numa das aulas Borges discorre acerca do livro: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões do seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões da sua vista; (…) depois temos o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.”
Das cinco aulas, mencionaremos ainda aquela dedicada ao místico, filósofo e cientista sueco Emanuel Swedenborg (1688 – 1772): “Voltaire afirmou que o homem mais extraordinário da história foi Carlos XII. Eu diria: talvez o homem mais extraordinário — se é que admitimos esses superlativos — tenha sido o mais misterioso dos súbditos de Carlos XII, Emanuel Swedenborg.”
De mais a mais, referiremos aqueloutra consagrada ao conto policial, onde Borges afirma que “(…) (Edgar Allan) Poe criou o relato policial, criou depois o tipo de leitor das histórias policiais (…)”, acrescentando mais à frente que “(…) Edgar Allan Poe, de quem deriva o simbolismo de Baudelaire, que foi discípulo dele e o invocava todas as noites.”
Remataremos este texto breve, sinalizando que a frase que lhe dá início surge em Ulrica, um dos treze contos que compõem, precisamente, O Livro de Areia, obra cuja primeira edição remonta ao ano de 1975.
Neste espaço, iremos tentar perscrutar a magia das palavras.