Qualquer que seja o ponto de vista que se adopte para o entendimento da evolução da música ao longo a Idade Média, há um nome que é ineludível. Falamos do monge beneditino italiano Guido de Arezzo (c. 990 – 1050), cuja importância para a História da Música releva do facto de lhe ser atribuído os méritos da invenção do pentagrama, ou pauta, e da nomeação das notas musicais como hoje as conhecemos.
São escassas as informações sobre a sua vida, havendo inclusivamente dúvidas sobre o local do seu nascimento. Os estudos levados a cabo pelo monge beneditino franco-belga Germain Morin (1861 – 1946) indicam que Guido de Arezzo (também conhecido como Guido Aretinus, Guido Monaco, Guido da Arezzo ou Guido d’Arezzo) terá nascido em França e vivido desde a sua juventude no Mosteiro beneditino de Saint-Maur-des-Fosses situado nas cercanias de Paris — como breve nota, adiantaremos que no códice 763 do Museu Britânico, o autor de “Micrologus” e de outras obras de Guido de Arezzo é sempre descrito como Guido de Sancto Mauro.
Sabe-se que por volta de 1013, ele já se encontrava a ensinar na Abadia de Pomposa, perto de Ferrara, em Itália.
Ao longo de vários séculos, a melodia da música sacra fora transmitida oralmente. Tal facto fez com que as peças cantadas fossem sofrendo alterações ao longo dos tempos.
Na viragem do século VIII para o século IX d.C., durante o Renascimento Carolíngio, surgiu um sistema de notação musical conhecido como notação neumática. Os neumas consistiam num conjunto de símbolos que indicavam a altura, a duração e o ritmo na música vocal.
Eram usados principalmente no canto gregoriano e em outras formas de cantochão para orientar os cantores na execução da música litúrgica.
No entanto, como aqueles símbolos não especificavam as alturas ou os ritmos exactos, os neumas forneciam, assim tão-só, uma noção geral do contorno melódico, logo os cantores de música sacra continuaram a depender da tradição oral para o aprendizado da melodia de uma canção.
É assim que, na Abadia de Pomposa, quando foi incumbido da tarefa de ensinar música, Guido de Arezzo começou a aperceber-se da dificuldade do ensino e execução da música sacra ao fazer uso daquele sistema de notação. No sentido de obviar tais entraves, Guido de Arezzo propôs-se reformar os métodos de ensino.
Remontando à Antiguidade, sabemos que a Música, a par da Aritmética, da Geometria e da Astronomia, era um dos quatro ramos das Ciências Matemáticas, designadas de Quadrivium — que juntamente com o Trivium (Gramática, Dialéctica e Retórica) compunham as sete artes liberais do curriculum medieval.
Para Guido de Arezzo, a música espelhava a beleza e a perfeição do mundo criado por Deus a partir do número e das suas proporções.
Guido de Arezzo, tal como o filósofo latino Boécio, conseguia apreender “a grande, espantosa e muito súbtil relação que existe entre a música e as proporções dos números”
É em Pomposa, num ambiente de grande fulgor intelectual, que o monge beneditino Guido de Arezzo lê e relê os grandes tratados sobre Música, redigidos pelos grandes vultos da Antiguidade clássica, como Pitágoras e Platão, assim como por Boécio, o filósofo romano que está na transição da Antiguidade para a Idade Média.
Durante o seu tempo em Pomposa, Guido de Arezzo idealizou o tetragrama, um sistema de quatro linhas para a escrita das notas musicais, sistema esse que viria a evoluir para o pentagrama, definindo assim aquela que é, ainda hoje, a base da notação musical. O alcance do seu gesto transformador foi ainda mais amplo ao desenvolver, em simultâneo, o sistema de solmização, donde provêm os nomes das actuais notas musicais.
Atentemos ainda, como nota de enorme e ineludível realce, que o nome das notas não foi uma evolução histórica, mas sim uma criação.
Dessarte, Guido de Arezzo promoveu a evolução e posterior substituição do sistema de neumas, revolucionando, assim, a notação musical. Para a atribuição de nomes às notas musicais, Guido de Arezzo socorreu-se das letras iniciais de cada verso da primeira estrofe de um hino litúrgico católico, em latim, dedicado a São João Batista, Ut queant laxis:
Ut queant laxis
resonare fibris,
Mira gestorum
famuli tuorum,
Solve polluti
labii reatum,
Sancte Iohannes
Posteriormente, em alguns países, Ut foi substituído por Dó.
Desse modo — com o pentagrama e com as “notas” Ut (dó), ré, mi, fá, sol, lá, si — Guido de Arezzo lançou as bases para o estabelecimento da moderna notação musical usada no Ocidente.
As resistências sentidas por ele, para a utilização das suas novas ideias, levaram-no a deixar Pomposa e pedir admissão ao Mosteiro de Arezzo.
A data exacta da sua entrada nesta comunidade parece incerta, tendo ocorrido, no entanto, entre 1023 e 1036, durante a prelazia de Teodaldo, bispo de Arezzo. Foi durante este período que Guido aperfeiçoou o novo sistema de notação que dilucidou de modo impreterível o ensino da música.
Acrescentaremos, de igual modo, que o lugar de realce que esse teórico musical e pedagogo ocupa na História da Música ocidental ainda é enfatizado, entre outros cometimentos, pela escrita de Micrologus, obra essa dedicada ao seu patrono, o bispo Teodaldo.
Micrologus de Disciplina Artis Musicae, redigida durante essa sua estada em Arezzo, onde ele viveu a maior parte da sua vida, é um breve, mas importante, tratado que versa sobre o Canto Gregoriano e discorre, outrossim, sobre o organum.
Sinalizaremos, ainda, que Micrologus de Guido de Arezzo foi, a seguir a De institutione musica de Boécio, o tratado sobre música de maior difusão durante todo o período medieval.
A relevância e a dimensão das suas inovações foram de tal monta que o Papa João XIX chamou-o a Roma, por volta de 1028, onde, no entanto, permaneceu por pouco tempo.
Quanto aos seus últimos anos, é possível que, por volta de 1029, Guido de Arezzo se encontrasse no Mosteiro da Avellana, situado nas encostas do Monte Catria, na província de Pesaro e Urbino, onde acabaria por falecer no ano de 1050. Há, no entanto, quem sustente que Guido de Arezzo terminou os seus dias em Arezzo.
Enfatizaremos, a terminar, que as suas ideias inovadoras conferem-lhe, de modo incontendível, um papel central na evolução da música ocidental.